O Maior Marco da Música Popular Brasileira
O início dos anos 60 é um verdadeiro marco na História da Música. E falo da música popular, no geral. Parece que naquele momento todos os deuses estavam em festa e, em unanimidade, decidiram que, de uma hora para outra, nós, meros mortais, éramos merecedores e então os maiores expoentes de diversas culturas musicais ao redor do mundo foram postos em ação. Naquele momento iluminado da nossa cultura, parece que "tudo que reluzia era, sim, ouro". Dos Beatles, na Inglaterra e Bob Dylan nos Estados Unidos a Ravi Shankar, na música indiana e, bom... "só" Tom Jobim e João Gilberto na música brasileira... Dois dos maiores gênios da História da nossa música co-agiam para que um dos momentos mais históricos (musicalmente falando) também fosse, naquela década de ouro, histórico para a Música Popular Brasileira. Coincidência? Eu, particularmente, acredito que não. Algo reluzia diferente naqueles dias. O mundo estava, sim, no seu auge cultural do século XX (nem ouse falar do século XXI) e, num momento em que movimentos culturais eram bem mais que "só" movimentos culturais (aqui, indo para uma linha mais ideológica), num pós-guerra mais agitado que vulcão em erupção (com Guerra Fria e corrida espacial)... naquele momento, enquanto todos os homens brigavam por um vil "poder", os Deuses habitaram entre nós, e nós não percebemos até que nos caísse, de fato, a ficha. Não é todo dia que se tem esse privilégio.
E, bom, quando digo que, naquele momento, os Deuses caminharam "entre nós" é porque foi entre nós MESMO. Cada um dos fenômenos culturais imediatamente seguintes ao pós-guerra, tendo um mínimo teor de relação ou não, é fruto de um momento em que, impreterivelmente, a humanidade buscava trilhar um novo caminho a partir das ruínas de um terrror desumano cuja repetição era incongitável. Nas inconscientes repercussões e consequências de tal "estado de espírito", lindas formas daquilo que temos de mais belo, enquanto civilização, se formavam (embora tudo isso possa parecer redundante).
Ainda que hoje se tente diminuir o "brasileirismo" da nossa Bossa Nova por, em tese, se tratar de um "tributo ao Jazz", naquele momento, no início dos anos 60, Tom Jobim e João Gilberto, dois de nossos maiores brasileiros, apresentavam, com glória, a música brasileira ao mundo; da mais melhor forma possível. Ao dividir as paradas com nomes como Frank Sinatra e Elvis Presley, um universo novo de possibilidades (comerciais e artísticas) surgia para artistas brasileiros. A partir daquele momento, então, o caminho de glória da música brasileira estava aberto e a belíssima síntese que vagava/"dançava" entre o minimalismo jazzístico e a síncope rítmica dos "bumbos" de uma Escola de Samba ficaria gravada na história como um dos feitos mais marcantes da história da Música, mundialmente falando. Isso não se repetirá. Não haverá "outro Tom Jobim" nem "outro João Gilberto". Mas gosto de pensar que ainda estão entre nós; dentre tantos discos e tocando em algumas vitrolas por aí... São nomes dos quais não se pode afastar nunca.
Bom, sobre nosso estado, enquanto bons brasileiros, lembro que, certa feita, nosso grande Tom Jobim afirmava, em entrevista: "O Rio de Janeiro de hoje é muito diferente do Rio de Janeiro em que cresci...". Sempre vi essa afirmação como uma metáfora. Tom sempre cantou o Rio de Janeiro, referindo-se, na grande maioria das vezes, ao espírito que em seu ânimo reconhecia como essencialmente brasileiro (ou, ao menos, era um dos seus referenciais de "brasileirismo"). O que mudou, na verdade, foi muito mais do que o Rio de Janeiro. O verdadeiro referencial (aparente e momentaneamente) perdido se encontra numa das áreas da mais proeminente importância e está na nossa identidade cultural (ou melhor dizendo: o referencial perdido é a nossa identidade cultural), que (aparentemente) a cada dia que passa renunciamos em troca de uma apropriação cultural absoluta e completamente desnecessária. Se a Inglaterra tem os Beatles, e se os Estados Unidos tiveram Bob Dylan, nós tivemos temos Tom Jobim e João Gilberto...
Sobre a nossa cultura e em nome de nossa própria identidade cultural, também metaforicamente, preciso dizer:

